Entre sonho e realidade
Minhas memórias, desejo-as lançadas ao vento,
Bailando com as lágrimas de uma brisa,
Ao som do assovio do vento,
Mergulhadas no mais profundo lago e por vezes
Erguidas no infinito...
Assim desejo que voem e distantes de mim sobrevivam,
Não pereçam frente às nulidades da espécie que faço parte,
Não se tornem partes de um mundo a beira do caos,
Corrompido em devaneios e estupidez
Fome e uma brutalidade irônica em contraste a uma falsa fé,
Minhas memórias, desejo-as em um sono latente,
Quase um estado de torpor,
Para que não adoeçam da tristeza que me assola,
Nem invoquem um prato sem necessidade,
Que apenas seduz os irônicos e alimenta a maldade,
Minhas memórias; planto-as em solo fértil,
Solitário e sem companhia,
Onde não há enchentes de ódio,
Aridez de olhares ou ações daninhas.
Rego-as apenas com a brisa de minha silenciosa oração,
De meus olhares perdidos na imensidão do esquecimento,
Nutro apenas com a fadiga que transpõe os limites da benevolência,
Crio um anti-ergástulo em uma suave bruma de tolerância,
Mantenho-as, sobretudo integras, frente a brutal realidade percebida por meus olhos,
Sacrifico meu riso, outrora infante e espontâneo,
Fazendo-o ator em um teatro de fantoches desvairados e alcoolizados.
Minhas memórias; faço-as entre as aspas,
Absolutas e livres de sarcasmo,
Em poucos diálogos e muitas expressões,
Em olhares que permanecem intactos ao tempo e assim
Continuarão pela eternidade de minh’alma,
Guardadas por anjos de cabelos encaracolados,
Ao som de harpas em um estado incompreensível aos tolos.
Minhas memórias; crio-as entre toques de pura seda,
Ao som de afagos, em respostas simples.
Moldo-a conforme um sentimento que não encontro isolado,
Junto pedaços para formá-lo.
Tão distantes se encontram, tão gastos e sufocados...
Recolho-os em âmbar – cristais de meiga verdade... Tão poucos pedaços...
Jazem a margem da vida dos que vagam no lodo da existência,
Morticínio da beleza, frente um sucumbir de vaidades vãs,
Tão terna simplicidade que se afoga em ignorâncias suicidas.
Minhas memórias; aceito-as como meu testamento,
A prova que não foi em vão todas as vezes que proferi a palavra “não”,
Não ao morticínio de crianças,
Não ao adjudicar da conquista pela corrupção,
Não a olhos lacrimejantes quase que cegos pela dor da estupidez – segundos de temperança,
Não ao conformismo que aliena e massifica a alma – escreve um epitáfio...
Não ao sono sem sonhos, embriagado em miragens efêmeras,
Não a realidade criada por tiranos, – camuflada em doses de veneno...
Cegueira que esconde os espelhos, impõe uma eterna ausência de luz,
Não a uma surdez que consome a criação – esmaga a imaginação, mecaniza o pensamento.
Não ao entardecer de minha existência em desespero e arrependimentos,
Não as parestesias causadas pelo excesso de superficialidade das relações humanas,
Não a ageunesia causada pelo perfume da luxuria,
Ou a ageusia provocada por beijos pérfidos entre olhares abertos.
Não a compreensão da animalesca forma que o homem assumiu – tão distante dos animais.
Não ao descaso aos imortais que em sangue se banharam para remediar o câncer da infâmia que se alastrou – hoje tão castigados em sorrateiras desdenhas que de rubro seus túmulos se pintam.
Não e sempre não a uma natureza humana que se faz tão barata em vitrines de mochos olhares.
E tão supérflua que torna invisível ao coração o caminho da integridade.
Que se acostuma com olhares pálidos e retorcidos dos que não tiveram sequer opção de viver.
Que desfruta dos manjares em noites claras ao som de tambores da morte Africana.
Que inventa um testamento divino e cria um ambiente familiar a Satanás.
Não e sempre não aos que temem em encontrarem em si mesmos a culpa.
Que se escondem, fazem-se tão pequenos em atos e palavras que impõe a Gaia um pranto em sangue e arrependimento pela criação.
Não e eternamente não aos que dizem serem felizes em miudezas e ignorância, prestando-se a figuração mor da servidão por migalhas.
“Caminharei sozinho em noites frias e somente com o agasalho de minha pele; beberei apenas das gostas de neblina que vem da névoa, mas jamais me curvarei em aceitação frente a precipício da conformidade. Não julgarei minha morte como suicídio ou omissão da vida, mas como parte de uma tarefa de permanecer erguido em minhas virtudes; outrora um infante que olhava com piedade os que eram cegos em suas falas e surdos em seus olhares e que se nutria do que lhe era belo e puro; com a ausência da simplicidade, surge uma mera conseqüência aos que se martirizam em suas crenças e, sufocam-se em angustia frente aos que já não percebem a maldade e acostumaram-se ao caos. Uma escolha que é isenta de culpa, mesmo que acompanhada da pálida prata que reflete a figura do “ser” tão distante dos animais, tal massa bruta brutalizou-se em ambições e jaz imantado em uma relva perdida e sem destino certo, usurpando e pilhando a ínfima esperança sufocada em finas cordas de nebulosa solidão”.
Minhas memórias – talho-as em meu epitáfio.
Do outrora riso da simplicidade ao agourento gargalhar da insanidade.
Jazem esquecidos os preceitos de sobrevivência.
Edificaram como símbolo o sofrimento em uma maquina de tortura de cravo e madeira.
Dela fizeram-na brilhar, em puro ouro e adereços de diamante.
E as vestes do cerimonial domam os inquietos e seduzem,
O impetuoso e majestoso retifica, absorve e disponibiliza um novo saldo de maldades,
A multidão aplaude o morticínio e até os quase mortos,
Enlaçados em desespero – vêem no seu sofrimento uma luz que, dita celestial, provem das masmorras de Hades.
Minhas memórias; invoco-as em entardeceres cinzentos,
Como elixir que espanta as tentações das facilidades sem responsabilidades,
Acariciando-a qual a face de um primeiro beijo,
Deixo-as em fragmentos – fractais que se constroem nas expressões de meus afetos,
Pedacinhos de minha existência a procura de reciprocidade,
Talhadas em meros papiros de reflexão,
Em letras que aos poucos tomam a forma de notas musicais,
Ao som do beijo das ondas, viaja galáxias de fantásticas cores e formas,
Retornam imediatamente ao meu chamado, coloridas pelas explosões das nebulosas,
Desfaz-se do espaço-tempo e entrega-me a chave de cada instante,
Em um novo olhar, uma nova perspectiva se faz,
Ao toque do vento que sopra do norte e do luar que se impõe majestoso,
Contemplo a imensidão dos pedacinhos de tempo que vagam em brilhos orquestrais,
E chega o momento da partida...
Habitando um novo amanhecer, proponho-me uma nova perspectiva,
Vago em ruas que, atoladas em andares apressados, perdem-se em meio ao amontoado de cabeças baixas,
Solitários andarilhos de uma nova era; perdidos em vago sonho, apenas uma fugaz “impressão” de existência,
Faces escavadas pelo consumismo e detentoras da outorgada promessa de felicidade,
Pensamentos vagam e consomem o espaço, quais serpentinas em uma festa de devaneio,
Uma história escrita sobre os elos de uma corrente outrora esquecida,
E quão finos são tais elos,
E quão invisíveis parecem,
E quão próximos aos tolos que se afirmam livres, acorrentados uma multidão de fanáticos caminha,
Quão extensa corrente que percorre todo o planeta e cria formas magníficas,
Espirais de sentimentos improfícuos, parabolóides de risos esdrúxulos,
A estupidez em proporções áureas...
E resigno-me o olhar ao homem fora da cadeia de imagens mirabolantes e sedutoras,
Disforme olhar que se aparta frente à multidão,
Feições cansadas e um quase estado de embriaguez contrastada uma vontade cogente de adentrar a teia;
Aos meus olhos uma vítima de uma terrível maldição,
Em blasfemas roucas quase implora os resíduos dos acorrentados,
E a natureza humana faz-se impetuosa frente o cadáver ambulante que se manifesta em vestes esfarrapadas e andares mancos,
Em apelos sem respostas, chora sem libertar as lágrimas,
Afunda-se em um desespero e, apelando a um conformismo nato dos fracos,
Mantêm-se ali, figurando e motivando os que não sentem sua dor,
Compartilhando com a calçada seu passado e,
Regurgitando seus pesares em aceitação,
Jaz, uma outrora promessa de vida, em um flagelo indispensável ao circo de horror traçado pela tão firme corrente,
Uma simples existência sem maiores ambições dentro da cadeia de finos fios...
Caminhando, desviando-me dos elos entorpecidos de sedução,
Observo...
Majestosos monumentos da soberba humana,
E vôo... Alto...Apenas um dado icosaédrico jogado a sorte por varias vezes,
Tateando o planeta que dantes erguia-se em planícies verdes e ares límpidos
Agora um imenso parque de luzes e negra névoa,
Chego aos túmulos de meus antepassados presentes,
Ainda residem nas criptas os adornos naturais dos ciprestes,
Aos, agora mortos, que não se acorrentaram, minhas ternas homenagens, meu respeito e admiração,
Uma vida inteira não basta para desfazer de tantos elos...
Ao lado do infinito
Estantes gigantescas se movem em pilhas de contos fabulosos,
Papiros cujo aroma provem dos jasmins que surgem na primavera de minha imaginação,
Contam a história de meus precursores, que por instantes, encontram-se no passado do espaço-tempo.
Acedo-me em não ficar muito tempo à espreita de minha prole,
E qual um arauto dos céus regresso ao meu vôo...
Em queda, como dantes, ao acaso...
Caí da tarde em alguma região do centro meridional,
Em solo firme, estende-se a mim o firmamento em cor baunilha,
E volta-me a atenção a algoz serpente,
Enlaçando bandos de prezas fáceis,
Em dois paralelos quadros em movimento, duas frentes, dois pensamentos, um conceito de “verdade”.
E entre gritos de desespero e facetas de tortura, montes de corpos irmãos se amontoam,
Em cortes de fino papel, a carne humana é servida em banquete,
Outrora homem simples, agora caçador...
Qual o inferno trilhado por Dante vejo em carnificina o doce riso de alguns acorrentados,
Em escárnio a vida se manifesta em sangue dos que em elo frouxo se prendem a corrente,
E tão normal como a própria jornada
Faz o baque de corpo infante nas masmorras da total irracionalidade,
E voam alto ao som de gritos, preces e lágrimas,
Membros da bruta massa,
Sejam pelas dissimuladas minas em alcovas subterrâneas,
Que ao simples e habitual caminhar brindam com sangue a terra mãe,
Sejam pelas brutas espadas afiadas da intolerância humana,
Ou pelo cintilar da cegueira frente o morticínio, tão cabal, tão trivial, tão distante do céu...
O caos impõe uma força tão frágil que apenas suplantando o terror é possível sua existência,
E ali, chacais e abutres espreitam a carne humana como diversão,
E um asqueroso cheiro de sangue putrefato incorpora-se a essência humana,
Das montanhas ao sul, que observam a batalha, ao árido chão de areia restam apenas cadavéricos corpos,
Alguns de pé, outros desfalecidos e, ainda outros desfigurados pelas laminas do despotismo,
Outros impávidos e eloqüentes em suas ameaças aplaudem, satisfeitos, o torque que atam-nos, ainda mais, a impetuosa corrente,
Ao fim apenas corpos sem vida, apenas um ergástulo fúnebre,
Apenas um show de fantoches orquestrado pela impetuosa serpente...
Aos olhos que cintilam, faúlhas – homens engravatados...
As correntes que dantes escondidas eram, agora livres aos olhos – mostram-se,
Vagam, taciturnos em cumprimentos curtos,
Não mais atores, não mais fantoches – uma assembléia feita em plena luz matinal,
Tão clara e evidente que aos olhos dos acorrentados ergue-se como uma ilusão,
Figuras anônimas em seus fazeres cotidianos – operadores do caos,
Em mesa farta de iguarias, respiram o ar da vitória perpetuada durante todo o sempre,
Abre-se a mim um manto espectral no espaço-tempo,
Olhos atentos, sempre estiveram de posse da corrente,
Seja pela força da destruição,
Pelo flagelo das enfermidades ou
Da própria fragilidade da facilmente seduzida natureza humana.
Em uma redoma intransponível aos tolos.
E ali em toques dosados o movimento ao algoz é ditado,
Quão tênues e delicados toques dominam o planeta,
Impõe a morte e a vida em um tão ritmado toque.
E do caos surgem riquezas e a estes tão distintos detentores da sapiência,
Promulgado o direito de acorrentar a humanidade,
Aos meus olhos o tormento de tanta aceitação e tanta neblina...
Em minha vida um instante futurista preso em um presente tão igual...
E vem a mim, do céu como paga pela abnegação de meus atos,
Um ar de certeza que nutri uma mente cansada, um espírito fortificado pela luta com a maldade em sua forma mais nítida,
Não ando sozinho...
Minhas memórias, uma viajem por segundos de eternidade,
A deixa de minhas mais nobres promessas,
Tão gastas pelos olhares de outrora, tão desiludidas pelo tolo comportamento dos fracos,
E agora em repouso, não mais em campos de dor ou batalhas de infortúnio,
Apenas o calmo e acolhedor silêncio,
Em olhares que surgem mágicos e pálpebras que se dilatam frente meu riso,
A minha frente não mais os conflitos, não mais as mágoas,
Apenas o amanhecer que se desdobra frente à imensidão,
Um doce aroma de rosas e um sentimento de segurança,
Dantes um cansado andarilho que agora repousa seus adornos de viajem e é recebido do regresso,
Ditando minhas vagas lembranças em pensamentos,
A razão perde-se frente o afago da pele em seda,
E de lábios abraçados em movimentos um novo dia invade minha vida,
Não mais bandidos, não mais vilões, não mais escravos,
Não mais atores ou correntes,
Apenas um abraço sem maiores predicados,
Um afago de ternura a visão de teus cabelos ao leu e olhar penetrante...
Minhas memórias, doce resguardo da sanidade,
Uma voz sem exageros,
Um sussurro de ternura que me faz despertar de todo o pesadelo,
A essência das relações humanas no simples fato da existência,
E aos meus ouvidos o som de sua voz feminina e angelical,
“Seja bem vindo, meu querido...”
Minhas memórias, desejo-as lançadas ao vento,
Bailando com as lágrimas de uma brisa,
Ao som do assovio do vento,
Mergulhadas no mais profundo lago e por vezes
Erguidas no infinito...
Assim desejo que voem e distantes de mim sobrevivam,
Não pereçam frente às nulidades da espécie que faço parte,
Não se tornem partes de um mundo a beira do caos,
Corrompido em devaneios e estupidez
Fome e uma brutalidade irônica em contraste a uma falsa fé,
Minhas memórias, desejo-as em um sono latente,
Quase um estado de torpor,
Para que não adoeçam da tristeza que me assola,
Nem invoquem um prato sem necessidade,
Que apenas seduz os irônicos e alimenta a maldade,
Minhas memórias; planto-as em solo fértil,
Solitário e sem companhia,
Onde não há enchentes de ódio,
Aridez de olhares ou ações daninhas.
Rego-as apenas com a brisa de minha silenciosa oração,
De meus olhares perdidos na imensidão do esquecimento,
Nutro apenas com a fadiga que transpõe os limites da benevolência,
Crio um anti-ergástulo em uma suave bruma de tolerância,
Mantenho-as, sobretudo integras, frente a brutal realidade percebida por meus olhos,
Sacrifico meu riso, outrora infante e espontâneo,
Fazendo-o ator em um teatro de fantoches desvairados e alcoolizados.
Minhas memórias; faço-as entre as aspas,
Absolutas e livres de sarcasmo,
Em poucos diálogos e muitas expressões,
Em olhares que permanecem intactos ao tempo e assim
Continuarão pela eternidade de minh’alma,
Guardadas por anjos de cabelos encaracolados,
Ao som de harpas em um estado incompreensível aos tolos.
Minhas memórias; crio-as entre toques de pura seda,
Ao som de afagos, em respostas simples.
Moldo-a conforme um sentimento que não encontro isolado,
Junto pedaços para formá-lo.
Tão distantes se encontram, tão gastos e sufocados...
Recolho-os em âmbar – cristais de meiga verdade... Tão poucos pedaços...
Jazem a margem da vida dos que vagam no lodo da existência,
Morticínio da beleza, frente um sucumbir de vaidades vãs,
Tão terna simplicidade que se afoga em ignorâncias suicidas.
Minhas memórias; aceito-as como meu testamento,
A prova que não foi em vão todas as vezes que proferi a palavra “não”,
Não ao morticínio de crianças,
Não ao adjudicar da conquista pela corrupção,
Não a olhos lacrimejantes quase que cegos pela dor da estupidez – segundos de temperança,
Não ao conformismo que aliena e massifica a alma – escreve um epitáfio...
Não ao sono sem sonhos, embriagado em miragens efêmeras,
Não a realidade criada por tiranos, – camuflada em doses de veneno...
Cegueira que esconde os espelhos, impõe uma eterna ausência de luz,
Não a uma surdez que consome a criação – esmaga a imaginação, mecaniza o pensamento.
Não ao entardecer de minha existência em desespero e arrependimentos,
Não as parestesias causadas pelo excesso de superficialidade das relações humanas,
Não a ageunesia causada pelo perfume da luxuria,
Ou a ageusia provocada por beijos pérfidos entre olhares abertos.
Não a compreensão da animalesca forma que o homem assumiu – tão distante dos animais.
Não ao descaso aos imortais que em sangue se banharam para remediar o câncer da infâmia que se alastrou – hoje tão castigados em sorrateiras desdenhas que de rubro seus túmulos se pintam.
Não e sempre não a uma natureza humana que se faz tão barata em vitrines de mochos olhares.
E tão supérflua que torna invisível ao coração o caminho da integridade.
Que se acostuma com olhares pálidos e retorcidos dos que não tiveram sequer opção de viver.
Que desfruta dos manjares em noites claras ao som de tambores da morte Africana.
Que inventa um testamento divino e cria um ambiente familiar a Satanás.
Não e sempre não aos que temem em encontrarem em si mesmos a culpa.
Que se escondem, fazem-se tão pequenos em atos e palavras que impõe a Gaia um pranto em sangue e arrependimento pela criação.
Não e eternamente não aos que dizem serem felizes em miudezas e ignorância, prestando-se a figuração mor da servidão por migalhas.
“Caminharei sozinho em noites frias e somente com o agasalho de minha pele; beberei apenas das gostas de neblina que vem da névoa, mas jamais me curvarei em aceitação frente a precipício da conformidade. Não julgarei minha morte como suicídio ou omissão da vida, mas como parte de uma tarefa de permanecer erguido em minhas virtudes; outrora um infante que olhava com piedade os que eram cegos em suas falas e surdos em seus olhares e que se nutria do que lhe era belo e puro; com a ausência da simplicidade, surge uma mera conseqüência aos que se martirizam em suas crenças e, sufocam-se em angustia frente aos que já não percebem a maldade e acostumaram-se ao caos. Uma escolha que é isenta de culpa, mesmo que acompanhada da pálida prata que reflete a figura do “ser” tão distante dos animais, tal massa bruta brutalizou-se em ambições e jaz imantado em uma relva perdida e sem destino certo, usurpando e pilhando a ínfima esperança sufocada em finas cordas de nebulosa solidão”.
Minhas memórias – talho-as em meu epitáfio.
Do outrora riso da simplicidade ao agourento gargalhar da insanidade.
Jazem esquecidos os preceitos de sobrevivência.
Edificaram como símbolo o sofrimento em uma maquina de tortura de cravo e madeira.
Dela fizeram-na brilhar, em puro ouro e adereços de diamante.
E as vestes do cerimonial domam os inquietos e seduzem,
O impetuoso e majestoso retifica, absorve e disponibiliza um novo saldo de maldades,
A multidão aplaude o morticínio e até os quase mortos,
Enlaçados em desespero – vêem no seu sofrimento uma luz que, dita celestial, provem das masmorras de Hades.
Minhas memórias; invoco-as em entardeceres cinzentos,
Como elixir que espanta as tentações das facilidades sem responsabilidades,
Acariciando-a qual a face de um primeiro beijo,
Deixo-as em fragmentos – fractais que se constroem nas expressões de meus afetos,
Pedacinhos de minha existência a procura de reciprocidade,
Talhadas em meros papiros de reflexão,
Em letras que aos poucos tomam a forma de notas musicais,
Ao som do beijo das ondas, viaja galáxias de fantásticas cores e formas,
Retornam imediatamente ao meu chamado, coloridas pelas explosões das nebulosas,
Desfaz-se do espaço-tempo e entrega-me a chave de cada instante,
Em um novo olhar, uma nova perspectiva se faz,
Ao toque do vento que sopra do norte e do luar que se impõe majestoso,
Contemplo a imensidão dos pedacinhos de tempo que vagam em brilhos orquestrais,
E chega o momento da partida...
Habitando um novo amanhecer, proponho-me uma nova perspectiva,
Vago em ruas que, atoladas em andares apressados, perdem-se em meio ao amontoado de cabeças baixas,
Solitários andarilhos de uma nova era; perdidos em vago sonho, apenas uma fugaz “impressão” de existência,
Faces escavadas pelo consumismo e detentoras da outorgada promessa de felicidade,
Pensamentos vagam e consomem o espaço, quais serpentinas em uma festa de devaneio,
Uma história escrita sobre os elos de uma corrente outrora esquecida,
E quão finos são tais elos,
E quão invisíveis parecem,
E quão próximos aos tolos que se afirmam livres, acorrentados uma multidão de fanáticos caminha,
Quão extensa corrente que percorre todo o planeta e cria formas magníficas,
Espirais de sentimentos improfícuos, parabolóides de risos esdrúxulos,
A estupidez em proporções áureas...
E resigno-me o olhar ao homem fora da cadeia de imagens mirabolantes e sedutoras,
Disforme olhar que se aparta frente à multidão,
Feições cansadas e um quase estado de embriaguez contrastada uma vontade cogente de adentrar a teia;
Aos meus olhos uma vítima de uma terrível maldição,
Em blasfemas roucas quase implora os resíduos dos acorrentados,
E a natureza humana faz-se impetuosa frente o cadáver ambulante que se manifesta em vestes esfarrapadas e andares mancos,
Em apelos sem respostas, chora sem libertar as lágrimas,
Afunda-se em um desespero e, apelando a um conformismo nato dos fracos,
Mantêm-se ali, figurando e motivando os que não sentem sua dor,
Compartilhando com a calçada seu passado e,
Regurgitando seus pesares em aceitação,
Jaz, uma outrora promessa de vida, em um flagelo indispensável ao circo de horror traçado pela tão firme corrente,
Uma simples existência sem maiores ambições dentro da cadeia de finos fios...
Caminhando, desviando-me dos elos entorpecidos de sedução,
Observo...
Majestosos monumentos da soberba humana,
E vôo... Alto...Apenas um dado icosaédrico jogado a sorte por varias vezes,
Tateando o planeta que dantes erguia-se em planícies verdes e ares límpidos
Agora um imenso parque de luzes e negra névoa,
Chego aos túmulos de meus antepassados presentes,
Ainda residem nas criptas os adornos naturais dos ciprestes,
Aos, agora mortos, que não se acorrentaram, minhas ternas homenagens, meu respeito e admiração,
Uma vida inteira não basta para desfazer de tantos elos...
Ao lado do infinito
Estantes gigantescas se movem em pilhas de contos fabulosos,
Papiros cujo aroma provem dos jasmins que surgem na primavera de minha imaginação,
Contam a história de meus precursores, que por instantes, encontram-se no passado do espaço-tempo.
Acedo-me em não ficar muito tempo à espreita de minha prole,
E qual um arauto dos céus regresso ao meu vôo...
Em queda, como dantes, ao acaso...
Caí da tarde em alguma região do centro meridional,
Em solo firme, estende-se a mim o firmamento em cor baunilha,
E volta-me a atenção a algoz serpente,
Enlaçando bandos de prezas fáceis,
Em dois paralelos quadros em movimento, duas frentes, dois pensamentos, um conceito de “verdade”.
E entre gritos de desespero e facetas de tortura, montes de corpos irmãos se amontoam,
Em cortes de fino papel, a carne humana é servida em banquete,
Outrora homem simples, agora caçador...
Qual o inferno trilhado por Dante vejo em carnificina o doce riso de alguns acorrentados,
Em escárnio a vida se manifesta em sangue dos que em elo frouxo se prendem a corrente,
E tão normal como a própria jornada
Faz o baque de corpo infante nas masmorras da total irracionalidade,
E voam alto ao som de gritos, preces e lágrimas,
Membros da bruta massa,
Sejam pelas dissimuladas minas em alcovas subterrâneas,
Que ao simples e habitual caminhar brindam com sangue a terra mãe,
Sejam pelas brutas espadas afiadas da intolerância humana,
Ou pelo cintilar da cegueira frente o morticínio, tão cabal, tão trivial, tão distante do céu...
O caos impõe uma força tão frágil que apenas suplantando o terror é possível sua existência,
E ali, chacais e abutres espreitam a carne humana como diversão,
E um asqueroso cheiro de sangue putrefato incorpora-se a essência humana,
Das montanhas ao sul, que observam a batalha, ao árido chão de areia restam apenas cadavéricos corpos,
Alguns de pé, outros desfalecidos e, ainda outros desfigurados pelas laminas do despotismo,
Outros impávidos e eloqüentes em suas ameaças aplaudem, satisfeitos, o torque que atam-nos, ainda mais, a impetuosa corrente,
Ao fim apenas corpos sem vida, apenas um ergástulo fúnebre,
Apenas um show de fantoches orquestrado pela impetuosa serpente...
Aos olhos que cintilam, faúlhas – homens engravatados...
As correntes que dantes escondidas eram, agora livres aos olhos – mostram-se,
Vagam, taciturnos em cumprimentos curtos,
Não mais atores, não mais fantoches – uma assembléia feita em plena luz matinal,
Tão clara e evidente que aos olhos dos acorrentados ergue-se como uma ilusão,
Figuras anônimas em seus fazeres cotidianos – operadores do caos,
Em mesa farta de iguarias, respiram o ar da vitória perpetuada durante todo o sempre,
Abre-se a mim um manto espectral no espaço-tempo,
Olhos atentos, sempre estiveram de posse da corrente,
Seja pela força da destruição,
Pelo flagelo das enfermidades ou
Da própria fragilidade da facilmente seduzida natureza humana.
Em uma redoma intransponível aos tolos.
E ali em toques dosados o movimento ao algoz é ditado,
Quão tênues e delicados toques dominam o planeta,
Impõe a morte e a vida em um tão ritmado toque.
E do caos surgem riquezas e a estes tão distintos detentores da sapiência,
Promulgado o direito de acorrentar a humanidade,
Aos meus olhos o tormento de tanta aceitação e tanta neblina...
Em minha vida um instante futurista preso em um presente tão igual...
E vem a mim, do céu como paga pela abnegação de meus atos,
Um ar de certeza que nutri uma mente cansada, um espírito fortificado pela luta com a maldade em sua forma mais nítida,
Não ando sozinho...
Minhas memórias, uma viajem por segundos de eternidade,
A deixa de minhas mais nobres promessas,
Tão gastas pelos olhares de outrora, tão desiludidas pelo tolo comportamento dos fracos,
E agora em repouso, não mais em campos de dor ou batalhas de infortúnio,
Apenas o calmo e acolhedor silêncio,
Em olhares que surgem mágicos e pálpebras que se dilatam frente meu riso,
A minha frente não mais os conflitos, não mais as mágoas,
Apenas o amanhecer que se desdobra frente à imensidão,
Um doce aroma de rosas e um sentimento de segurança,
Dantes um cansado andarilho que agora repousa seus adornos de viajem e é recebido do regresso,
Ditando minhas vagas lembranças em pensamentos,
A razão perde-se frente o afago da pele em seda,
E de lábios abraçados em movimentos um novo dia invade minha vida,
Não mais bandidos, não mais vilões, não mais escravos,
Não mais atores ou correntes,
Apenas um abraço sem maiores predicados,
Um afago de ternura a visão de teus cabelos ao leu e olhar penetrante...
Minhas memórias, doce resguardo da sanidade,
Uma voz sem exageros,
Um sussurro de ternura que me faz despertar de todo o pesadelo,
A essência das relações humanas no simples fato da existência,
E aos meus ouvidos o som de sua voz feminina e angelical,
“Seja bem vindo, meu querido...”
MCCS

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