Onde nascem nossos sentimentos?
Talvez uma mera casualidade orgânica,
No desenrolar de sinapses neurais demasiadamente específicas,
E pensar cientificamente talvez não seja
O caminho mais coerente e com certeza é o mais distante da realidade,
Seria necessário, pois, invocar um “dicionário” de termos químicos, físicos, bioquímicos,...
E anos de pesquisas somar-se-iam com séculos e, milênios passar-se-iam,
E após uma descrição técnica composta de uma plenária “séria” os dados seriam apresentados,
Gráficos,
Simulações,
Interpolações,
Extrapolações...
E teorias seriam divulgadas,
Modelos apresentados,
Talvez algum físico inventasse a fórmula do amor, tal como uma equação de onda...
E apresentasse um artigo na Nature, descrevendo tecnicamente o amor...
Ainda que absurdo pareça à mente humana, alguns encontrariam uma forma de mensurar o amor, e patenteariam a descoberta...
Uma grande empresa faria o arquétipo de um possível aparelho capaz de indicar, através de incontáveis cálculos matemáticos, um número associado ao amor...
Os inventores ganhariam os roilts
Uma campanha de marketing trataria de divulgar a invenção,
Em pouco tempo as pessoas de “alta classe” poderiam monitorar o “quanto” de amor dispunha por essa ou aquela pessoa...
Logicamente uma escala seria criada para uma melhor compreensão do amor,
Algumas se admirariam devido ao “quanto” de amor tinham a disposição e outras se assuntariam por serem tão desprezadas,
Após um crescente aumento no índice de suicídios, matrimônios desfeitos, um ou dois conflitos armados, a venda fica temporariamente vetada...
A mesma industria, após uma ação governamental, diria que o aparelho apresentara uma falha técnica e que seria sanada, alguns parlamentares comprados, volta-se a “maquininha” ao mercado,
Alguns anos se passam, novas pesquisas, patentes expiram e a invenção torna-se domínio publico,
Varias empresas adentram no ramo na TECNAMOR
Modelos mais avançados são lançados, e slogans novos são divulgados em outdoors:
“Saiba o quanto seu marido lhe ama, através de sua transpiração”,
“Novo AMORIMETRO, agora com ficou fácil saber se sua esposa está lhe traindo.”
E as manifestações inerentes ao amor são agora, partes de espectro,
Qual o espectro eletromagnético ou o código genético, um grupo de cientistas reúnem-se para decodificar o “código do amor”
Após 121 anos de pesquisas o código fica pronto, um alvoroço se forma na mídia,
Os resultados mostram-se impressionantes:
Manifestações mais “suaves” do espectro revelam a possibilidade de outras mensurações,
E define-se o amor:
“Conjunto de micro-sentimentos manifestados por uma pessoa em relação à outra ou a um objeto qualquer”.
E as empresas constroem aparelhos mais sofisticados,
Capazes de mensurar carinho, respeito, admiração, ou qualquer afeto descritível.
E modelos são desenvolvidos para animais de estimação.
Logicamente, cada aparelho é intransferível e regulado no ato da compra.
Em verdade, desde o primeiro aparelho essa máxima já se mostrava presente.
Aos fies aparelhos específicos para mensurar sua fé são utilizados nos sermões, após uma extrapolação da fé de ícones como Jesus, Madre Tereza, Gandhi, Sidarta Gautama, Maomé...
Em pouco tempo a então grandeza amor ganha novas derivações e números,
São utilizados novos termos e definições:
“Potencial Amorifico: Capacidade de amar de cada individuo”
“Campo de Amor: Medida do somatório de amor direcionado a certo indivíduo em um dado espaço”.
“Fluxo de amor: Quantidade de amor recebida em dado intervalo de tempo”
E algumas pesquisas da medicina indicam que as pessoas para terem uma saúde perfeita devem estar submetidas a um numero “x” de campo amorniano.
Outras dizem que o fluxo “y” de amor diário garante uma maior longevidade.
E os aparelhos percorrem as mãos de praticamente todas as pessoas da terra.
Logicamente, devido aos problemas de outrora, as empresas modificam os aparelhos para que todas as pessoas tenham um mínimo de amor possível.
E as pessoas vivem “felizes”, enganadas, porem certas de que são queridas por outras.
E comentários ecoam pelos ambientes joviais:
“Nossa hoje o nível de amor está alto”
“Você viu o novo aparelho que saiu ontem, ele indica a probabilidade de um relacionamento dar certo”.
“Eu li que doses homeopáticas de amor são mais saudáveis”.
“O governo vai instituir que casais que não amam adequadamente seus filhos venham a perder a guarda”.
E a ciência cumpre seu papel.
E já não existe mais uma preocupação com a confiabilidade dos números,
Os indivíduos mostram-se seduzidos pelos números e somente eles importam,
Pessoas que apresentam números “maiores” estão fadadas à felicidade.
E o carinho é medido e controlado, casais instituem horários para sentirem carinho mutuamente.
Crianças aprendem que o amor é uma medida,
A palavra sentimento reside apenas em dicionários arcaicos,
E concursos são criados “a pessoa mais amada do mundo, estado, cidade...”; A pessoa mais amável do mundo, estado...”
Mas embora o aparelho quase mágico tenha aparecido, o mundo não parece ter mudado,
Ainda transitam pelas ruas flagelados, famintos e oprimidos,
Estranhamente são seduzidos pelo “aparelhozinho” e não percebem suas angustias, têm eles o mínimo recomendado pelo “Ministério de Controle do Amor e Sanidade” qual Orwell tinha previsto.
E cria-se o padrão de amor, a modismo amorniano, produtos e terapias...
Pessoas se especializam em “consultaria amorniana”,
Mas a África ainda sangra em guerras civis, em fome, em mutilações...
Mas sensores controlados por satélites indicam que o problema da África, não é falta de amor, pois índices indicam que a taxa está crescendo e tão logo cheguem ao ponto “A” os conflitos cessarão.
Nunca os números foram tão favoráveis à “felicidade”.
Mas ainda acontecem crimes, estupros são justificados:
“Meu aparelho indicava que a senhora “J” estava apta a copula com minha pessoa”.
Problemas técnicos, erros de leitura, mais um dentro da jaula,
E embora lojas tenham sensores de campo amorniano, os assaltos não deixam de ocorrer,
E a prostituição, agora denominada reposição de carinho por profissionais treinados, gerencia a manutenção da “felicidade”...
Políticos mais amáveis são eleitos com maior felicidade,
Mas ainda existe corrupção,
Um dia se descobre um desdobramento de uma das raias do espectro amoniano – a banda da honestidade,
E o “caráter” passa a ser a referência, agora, monitorado via satélite.
E se tapam as lacunas da áfrica e crimes, pois a honestidade agora medida é o melhor indicador...
Neste mesmo período, com o estudo da banda da honestidade um novo código de leis internacionais é criado, presidido pela, também recém criada, OHM (organização da honestidade mundial) – composta pelas pessoas mais honestas do planeta...
E por que é assim? – Porque assim informam os números.
E o grau mínimo de honestidade (GMH) corresponde à média ponderada dos presídios de todo o mundo, considerandos os delitos comuns a cada nação.
Alguns dias após a publicação do GMH, várias nações modificam seus códigos de leis, e começam as caçada as bruxas,
E uma nova classe de indivíduo é criada – os peseudohumanos.
E todos são condenados, obrigados a andarem com uma vestimenta adequada que os indiquem,
E os dantes invisíveis sociais, agora rotulados por uma roupa xadrez, são submetidos as piores torturas psicológicas,
E os peseudohumanos têm seus direitos suspensos até recuperarem ou obterem a honestidade mínima exigida por lei,
Um novo requisito de mercado é criado, mas muitos conseguem burlar os sensores, manipular os números e o mundo não muda muito...
Os peseudohumanos praticamente escravos, mas é justificável - “quem confiaria em um animal desta categoria” clama um programa de TV.
Já outro apresenta alguns ex-peseudohumanos, recentemente recuperados e com elevadíssimos níveis de honestidade – fruto de uma iniciativa governamental.
O mundo evolui...
E já não existem mais diálogos entre as pessoas, basta olhar o número indicado no “carinhometro”, “tesometro”...
Orfanatos indicam os indicies de potencial afetivo das crianças através de gráficos – através destes os possíveis pais podem verificar o quanto vão ser amados por seus futuros filhos...
Já nesta época uma recente pesquisa indica que um neurotransmissor é o responsável pela desonestidade e apenas pessoas com determinadas combinações gênicas metabolisam tal substância.
A industria farmacêutica sintetiza a droga e vende a nações em guerra...
E o mundo caminha por mais um tempo...
E a certeza da retidão é a chave mestra de todas as nações, mas o mundo ainda é o mesmo,
Os dantes rotulados, após um tempo tornam-se invisíveis, o silêncio impera sob o planeta...
Um evento marca o mundo no dia 26 de dezembro de 1500 da era pós Amor Global,
A guerra do amor tem inicio, uma nova norma instituída pela OHM unifica as nações mais amáveis e honestas do mundo, por coincidência as mais RICAS.
E o bloco é governado pele semideus Átila.
E as nações desonestas são varridas da face do planeta por representarem o maior mal existente na terra.
E Deus é descrito agora em números, cujo único ser capaz de compreender seus mandamentos é o semideus – o mundo está a salvo, o mundo esta feliz, Deus, agora unificado em religião e estado comanda o mundo, e o amor perpetua na terra.
Pode-se acabar a história futurista facilmente, ou perdurar em novos fatos,
Um evento cataclísmico destrói o mundo,
Átila enlouquece e dispara varias armas nucleares sob o planeta,
Seres extraterrenos invadem a terra e dominando-a,
Pouco importa o quanto pareça o final da história,
São meras linhas riscadas na incerteza, no absurdo destacado outrora,
É o fruto de minha incapacidade de dizer “eu te amo”
Sem sentir medo
È a prova cabal de minha fraqueza como humano,
É pensar em fazer bobagens infantis para, novamente, despertar sua atenção, mesmo parecendo-me ridículo, mesmo após tanto tempo de convivência,
É um caminho bem humorado que revela minha falta de fé,
O medo de te esquecer, mesmo julgando a impossibilidade desse acontecimento,
A ausência da realidade que só existe em meus sonhos, em meus pensamentos,
A perda da capacidade de julgamento entre onde termina minha alma e começa a sua.
O total desespero de sentir uma saudade escandalosa e brigar com o mundo porque você se encontra distante.
A angustia das horas se passarem lentamente enquanto espero seu telefonema, uma mensagem sua...
O palpitar involuntário do peito frete suas expressões faciais e a lembrança perdida de seu riso diante do crepuscular,
É esquecer toda minha ciência, todo meu jeito metódico em ações e falas e estabelecer o critério da simplicidade, revelar em meu olhar o quanto foi e é importante a minha vida,
E ver diante da noite, dentre minha brincadeira de ligar pontos luminosos revelam-se os instantes que passamos juntos,
O afago de minha mão sob sua pele, percorrendo-te todo seu corpo,
O velar de seu sono suave e ritmado – sincronizando as batidas dos nossos corações,
Seu despertar com os cabelos revoltos e olhar angelical,
Sua fraqueza para bebidas e o jeito alegre que ficava quando exagerava,
Seu ciúme disfarçado contrastado em abraços fortes e face enfezada...
Nossas discussões por bobagens e o jeito engraçado que elas acabavam,
Sua insistência maluca em querer que participássemos do greenpeace, em querer colocar a mochila nas costas e sair sem rumo pelo mundo.
Suas lagrimas, frente meu esquecimento de datas “especiais”.
E o dia vem, levando os pontos iluminados do céu,
E já não risco mais nosso recente passado nas linhas do infinito,
Vêm a mim, por fim, a consciência, a realidade...
A saudade de algo que literalmente pertenceu apenas a duas almas terrenas,
Ausente a terceiros, ausente de opiniões alheias – somente nossa.
E no absurdo de minhas histórias inventadas sobre amores medidos e mundos destruídos,
Fica comigo apenas a necessidade de regar o espaço destinado a você e que sempre será seu
Nesse estranho jardim que é minha vida,
Para que, caso deseje retornar ainda encontre solo fértil para descansar,
Embora despedidas e lacerações mutuas tenham ocorrido,
Embora o riso pálido da despedida não seja o real retrato de nossa relação,
As lembranças, desde nosso encontro casual até o traçar destas linhas, se sobrepõe a coisas menores, aos meros caprichos da natureza humana – a qual fazemos parte.
E jaz em minha vida, qual uma cicatriz, o marco do teu primeiro riso, o seu jeito menina de me ensinar à humildade, a responsabilidade de meus julgamentos e a necessidade de auxiliar os menos favorecidos,
Como prova de minha eterna devoção e carinho por você,
E rogo, aos meus novos afetos, que possam refletir em mim a infinita felicidade que me fizeste sentir,
E este momento de fé é derivado de meu medo de jamais tornar a sentir com a mesma intensidade os sentimentos que despertou,
É a maior prova de minha fraqueza e o motivo mister de muitas de minhas ações.
Exórdio de uma batalha mental de procurar a felicidade sabendo que por ventura você venha a não fazer parte do epílogo.
Assim fica a Deus o pedido, em uma prece egoísta, de novamente encontrar aqueles dias de êxtase, em que a sua presença contrariava todo o absurdo de mensurar o amor, o carinho, o respeito; pois simplesmente não se mensura uma idéia, não é possível criar uma escala para medir o infinito.
É tão difícil dizer “eu te amo”...
M.C.C. Santos
domingo, 2 de novembro de 2008
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