quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Entre sonho e realidade

Minhas memórias, desejo-as lançadas ao vento,
Bailando com as lágrimas de uma brisa,
Ao som do assovio do vento,
Mergulhadas no mais profundo lago e por vezes
Erguidas no infinito...
Assim desejo que voem e distantes de mim sobrevivam,
Não pereçam frente às nulidades da espécie que faço parte,
Não se tornem partes de um mundo a beira do caos,
Corrompido em devaneios e estupidez
Fome e uma brutalidade irônica em contraste a uma falsa fé,

Minhas memórias, desejo-as em um sono latente,
Quase um estado de torpor,
Para que não adoeçam da tristeza que me assola,
Nem invoquem um prato sem necessidade,
Que apenas seduz os irônicos e alimenta a maldade,

Minhas memórias; planto-as em solo fértil,
Solitário e sem companhia,
Onde não há enchentes de ódio,
Aridez de olhares ou ações daninhas.
Rego-as apenas com a brisa de minha silenciosa oração,
De meus olhares perdidos na imensidão do esquecimento,
Nutro apenas com a fadiga que transpõe os limites da benevolência,
Crio um anti-ergástulo em uma suave bruma de tolerância,
Mantenho-as, sobretudo integras, frente a brutal realidade percebida por meus olhos,
Sacrifico meu riso, outrora infante e espontâneo,
Fazendo-o ator em um teatro de fantoches desvairados e alcoolizados.

Minhas memórias; faço-as entre as aspas,
Absolutas e livres de sarcasmo,
Em poucos diálogos e muitas expressões,
Em olhares que permanecem intactos ao tempo e assim
Continuarão pela eternidade de minh’alma,
Guardadas por anjos de cabelos encaracolados,
Ao som de harpas em um estado incompreensível aos tolos.

Minhas memórias; crio-as entre toques de pura seda,
Ao som de afagos, em respostas simples.
Moldo-a conforme um sentimento que não encontro isolado,
Junto pedaços para formá-lo.
Tão distantes se encontram, tão gastos e sufocados...
Recolho-os em âmbar – cristais de meiga verdade... Tão poucos pedaços...
Jazem a margem da vida dos que vagam no lodo da existência,
Morticínio da beleza, frente um sucumbir de vaidades vãs,
Tão terna simplicidade que se afoga em ignorâncias suicidas.

Minhas memórias; aceito-as como meu testamento,
A prova que não foi em vão todas as vezes que proferi a palavra “não”,
Não ao morticínio de crianças,
Não ao adjudicar da conquista pela corrupção,
Não a olhos lacrimejantes quase que cegos pela dor da estupidez – segundos de temperança,
Não ao conformismo que aliena e massifica a alma – escreve um epitáfio...
Não ao sono sem sonhos, embriagado em miragens efêmeras,
Não a realidade criada por tiranos, – camuflada em doses de veneno...
Cegueira que esconde os espelhos, impõe uma eterna ausência de luz,
Não a uma surdez que consome a criação – esmaga a imaginação, mecaniza o pensamento.
Não ao entardecer de minha existência em desespero e arrependimentos,
Não as parestesias causadas pelo excesso de superficialidade das relações humanas,
Não a ageunesia causada pelo perfume da luxuria,
Ou a ageusia provocada por beijos pérfidos entre olhares abertos.
Não a compreensão da animalesca forma que o homem assumiu – tão distante dos animais.
Não ao descaso aos imortais que em sangue se banharam para remediar o câncer da infâmia que se alastrou – hoje tão castigados em sorrateiras desdenhas que de rubro seus túmulos se pintam.

Não e sempre não a uma natureza humana que se faz tão barata em vitrines de mochos olhares.
E tão supérflua que torna invisível ao coração o caminho da integridade.
Que se acostuma com olhares pálidos e retorcidos dos que não tiveram sequer opção de viver.
Que desfruta dos manjares em noites claras ao som de tambores da morte Africana.
Que inventa um testamento divino e cria um ambiente familiar a Satanás.
Não e sempre não aos que temem em encontrarem em si mesmos a culpa.
Que se escondem, fazem-se tão pequenos em atos e palavras que impõe a Gaia um pranto em sangue e arrependimento pela criação.
Não e eternamente não aos que dizem serem felizes em miudezas e ignorância, prestando-se a figuração mor da servidão por migalhas.
“Caminharei sozinho em noites frias e somente com o agasalho de minha pele; beberei apenas das gostas de neblina que vem da névoa, mas jamais me curvarei em aceitação frente a precipício da conformidade. Não julgarei minha morte como suicídio ou omissão da vida, mas como parte de uma tarefa de permanecer erguido em minhas virtudes; outrora um infante que olhava com piedade os que eram cegos em suas falas e surdos em seus olhares e que se nutria do que lhe era belo e puro; com a ausência da simplicidade, surge uma mera conseqüência aos que se martirizam em suas crenças e, sufocam-se em angustia frente aos que já não percebem a maldade e acostumaram-se ao caos. Uma escolha que é isenta de culpa, mesmo que acompanhada da pálida prata que reflete a figura do “ser” tão distante dos animais, tal massa bruta brutalizou-se em ambições e jaz imantado em uma relva perdida e sem destino certo, usurpando e pilhando a ínfima esperança sufocada em finas cordas de nebulosa solidão”.
Minhas memórias – talho-as em meu epitáfio.
Do outrora riso da simplicidade ao agourento gargalhar da insanidade.
Jazem esquecidos os preceitos de sobrevivência.
Edificaram como símbolo o sofrimento em uma maquina de tortura de cravo e madeira.
Dela fizeram-na brilhar, em puro ouro e adereços de diamante.
E as vestes do cerimonial domam os inquietos e seduzem,
O impetuoso e majestoso retifica, absorve e disponibiliza um novo saldo de maldades,
A multidão aplaude o morticínio e até os quase mortos,
Enlaçados em desespero – vêem no seu sofrimento uma luz que, dita celestial, provem das masmorras de Hades.

Minhas memórias; invoco-as em entardeceres cinzentos,
Como elixir que espanta as tentações das facilidades sem responsabilidades,
Acariciando-a qual a face de um primeiro beijo,
Deixo-as em fragmentos – fractais que se constroem nas expressões de meus afetos,
Pedacinhos de minha existência a procura de reciprocidade,
Talhadas em meros papiros de reflexão,
Em letras que aos poucos tomam a forma de notas musicais,
Ao som do beijo das ondas, viaja galáxias de fantásticas cores e formas,
Retornam imediatamente ao meu chamado, coloridas pelas explosões das nebulosas,
Desfaz-se do espaço-tempo e entrega-me a chave de cada instante,
Em um novo olhar, uma nova perspectiva se faz,
Ao toque do vento que sopra do norte e do luar que se impõe majestoso,
Contemplo a imensidão dos pedacinhos de tempo que vagam em brilhos orquestrais,
E chega o momento da partida...

Habitando um novo amanhecer, proponho-me uma nova perspectiva,
Vago em ruas que, atoladas em andares apressados, perdem-se em meio ao amontoado de cabeças baixas,
Solitários andarilhos de uma nova era; perdidos em vago sonho, apenas uma fugaz “impressão” de existência,
Faces escavadas pelo consumismo e detentoras da outorgada promessa de felicidade,
Pensamentos vagam e consomem o espaço, quais serpentinas em uma festa de devaneio,
Uma história escrita sobre os elos de uma corrente outrora esquecida,
E quão finos são tais elos,
E quão invisíveis parecem,
E quão próximos aos tolos que se afirmam livres, acorrentados uma multidão de fanáticos caminha,
Quão extensa corrente que percorre todo o planeta e cria formas magníficas,
Espirais de sentimentos improfícuos, parabolóides de risos esdrúxulos,
A estupidez em proporções áureas...
E resigno-me o olhar ao homem fora da cadeia de imagens mirabolantes e sedutoras,
Disforme olhar que se aparta frente à multidão,
Feições cansadas e um quase estado de embriaguez contrastada uma vontade cogente de adentrar a teia;
Aos meus olhos uma vítima de uma terrível maldição,
Em blasfemas roucas quase implora os resíduos dos acorrentados,
E a natureza humana faz-se impetuosa frente o cadáver ambulante que se manifesta em vestes esfarrapadas e andares mancos,
Em apelos sem respostas, chora sem libertar as lágrimas,
Afunda-se em um desespero e, apelando a um conformismo nato dos fracos,
Mantêm-se ali, figurando e motivando os que não sentem sua dor,
Compartilhando com a calçada seu passado e,
Regurgitando seus pesares em aceitação,
Jaz, uma outrora promessa de vida, em um flagelo indispensável ao circo de horror traçado pela tão firme corrente,
Uma simples existência sem maiores ambições dentro da cadeia de finos fios...

Caminhando, desviando-me dos elos entorpecidos de sedução,
Observo...
Majestosos monumentos da soberba humana,
E vôo... Alto...Apenas um dado icosaédrico jogado a sorte por varias vezes,
Tateando o planeta que dantes erguia-se em planícies verdes e ares límpidos
Agora um imenso parque de luzes e negra névoa,
Chego aos túmulos de meus antepassados presentes,
Ainda residem nas criptas os adornos naturais dos ciprestes,
Aos, agora mortos, que não se acorrentaram, minhas ternas homenagens, meu respeito e admiração,
Uma vida inteira não basta para desfazer de tantos elos...
Ao lado do infinito
Estantes gigantescas se movem em pilhas de contos fabulosos,
Papiros cujo aroma provem dos jasmins que surgem na primavera de minha imaginação,
Contam a história de meus precursores, que por instantes, encontram-se no passado do espaço-tempo.
Acedo-me em não ficar muito tempo à espreita de minha prole,
E qual um arauto dos céus regresso ao meu vôo...
Em queda, como dantes, ao acaso...

Caí da tarde em alguma região do centro meridional,
Em solo firme, estende-se a mim o firmamento em cor baunilha,
E volta-me a atenção a algoz serpente,
Enlaçando bandos de prezas fáceis,
Em dois paralelos quadros em movimento, duas frentes, dois pensamentos, um conceito de “verdade”.
E entre gritos de desespero e facetas de tortura, montes de corpos irmãos se amontoam,
Em cortes de fino papel, a carne humana é servida em banquete,
Outrora homem simples, agora caçador...
Qual o inferno trilhado por Dante vejo em carnificina o doce riso de alguns acorrentados,
Em escárnio a vida se manifesta em sangue dos que em elo frouxo se prendem a corrente,
E tão normal como a própria jornada
Faz o baque de corpo infante nas masmorras da total irracionalidade,
E voam alto ao som de gritos, preces e lágrimas,
Membros da bruta massa,
Sejam pelas dissimuladas minas em alcovas subterrâneas,
Que ao simples e habitual caminhar brindam com sangue a terra mãe,
Sejam pelas brutas espadas afiadas da intolerância humana,
Ou pelo cintilar da cegueira frente o morticínio, tão cabal, tão trivial, tão distante do céu...
O caos impõe uma força tão frágil que apenas suplantando o terror é possível sua existência,
E ali, chacais e abutres espreitam a carne humana como diversão,
E um asqueroso cheiro de sangue putrefato incorpora-se a essência humana,
Das montanhas ao sul, que observam a batalha, ao árido chão de areia restam apenas cadavéricos corpos,
Alguns de pé, outros desfalecidos e, ainda outros desfigurados pelas laminas do despotismo,
Outros impávidos e eloqüentes em suas ameaças aplaudem, satisfeitos, o torque que atam-nos, ainda mais, a impetuosa corrente,
Ao fim apenas corpos sem vida, apenas um ergástulo fúnebre,
Apenas um show de fantoches orquestrado pela impetuosa serpente...

Aos olhos que cintilam, faúlhas – homens engravatados...
As correntes que dantes escondidas eram, agora livres aos olhos – mostram-se,
Vagam, taciturnos em cumprimentos curtos,
Não mais atores, não mais fantoches – uma assembléia feita em plena luz matinal,
Tão clara e evidente que aos olhos dos acorrentados ergue-se como uma ilusão,
Figuras anônimas em seus fazeres cotidianos – operadores do caos,
Em mesa farta de iguarias, respiram o ar da vitória perpetuada durante todo o sempre,
Abre-se a mim um manto espectral no espaço-tempo,
Olhos atentos, sempre estiveram de posse da corrente,
Seja pela força da destruição,
Pelo flagelo das enfermidades ou
Da própria fragilidade da facilmente seduzida natureza humana.
Em uma redoma intransponível aos tolos.
E ali em toques dosados o movimento ao algoz é ditado,
Quão tênues e delicados toques dominam o planeta,
Impõe a morte e a vida em um tão ritmado toque.
E do caos surgem riquezas e a estes tão distintos detentores da sapiência,
Promulgado o direito de acorrentar a humanidade,
Aos meus olhos o tormento de tanta aceitação e tanta neblina...
Em minha vida um instante futurista preso em um presente tão igual...
E vem a mim, do céu como paga pela abnegação de meus atos,
Um ar de certeza que nutri uma mente cansada, um espírito fortificado pela luta com a maldade em sua forma mais nítida,
Não ando sozinho...

Minhas memórias, uma viajem por segundos de eternidade,
A deixa de minhas mais nobres promessas,
Tão gastas pelos olhares de outrora, tão desiludidas pelo tolo comportamento dos fracos,
E agora em repouso, não mais em campos de dor ou batalhas de infortúnio,
Apenas o calmo e acolhedor silêncio,
Em olhares que surgem mágicos e pálpebras que se dilatam frente meu riso,
A minha frente não mais os conflitos, não mais as mágoas,
Apenas o amanhecer que se desdobra frente à imensidão,
Um doce aroma de rosas e um sentimento de segurança,
Dantes um cansado andarilho que agora repousa seus adornos de viajem e é recebido do regresso,
Ditando minhas vagas lembranças em pensamentos,
A razão perde-se frente o afago da pele em seda,
E de lábios abraçados em movimentos um novo dia invade minha vida,
Não mais bandidos, não mais vilões, não mais escravos,
Não mais atores ou correntes,
Apenas um abraço sem maiores predicados,
Um afago de ternura a visão de teus cabelos ao leu e olhar penetrante...

Minhas memórias, doce resguardo da sanidade,
Uma voz sem exageros,
Um sussurro de ternura que me faz despertar de todo o pesadelo,
A essência das relações humanas no simples fato da existência,
E aos meus ouvidos o som de sua voz feminina e angelical,
“Seja bem vindo, meu querido...”
MCCS




domingo, 2 de novembro de 2008

Poesia

Onde nascem nossos sentimentos?
Talvez uma mera casualidade orgânica,
No desenrolar de sinapses neurais demasiadamente específicas,
E pensar cientificamente talvez não seja
O caminho mais coerente e com certeza é o mais distante da realidade,
Seria necessário, pois, invocar um “dicionário” de termos químicos, físicos, bioquímicos,...
E anos de pesquisas somar-se-iam com séculos e, milênios passar-se-iam,
E após uma descrição técnica composta de uma plenária “séria” os dados seriam apresentados,
Gráficos,
Simulações,
Interpolações,
Extrapolações...
E teorias seriam divulgadas,
Modelos apresentados,
Talvez algum físico inventasse a fórmula do amor, tal como uma equação de onda...
E apresentasse um artigo na Nature, descrevendo tecnicamente o amor...
Ainda que absurdo pareça à mente humana, alguns encontrariam uma forma de mensurar o amor, e patenteariam a descoberta...
Uma grande empresa faria o arquétipo de um possível aparelho capaz de indicar, através de incontáveis cálculos matemáticos, um número associado ao amor...
Os inventores ganhariam os roilts
Uma campanha de marketing trataria de divulgar a invenção,
Em pouco tempo as pessoas de “alta classe” poderiam monitorar o “quanto” de amor dispunha por essa ou aquela pessoa...
Logicamente uma escala seria criada para uma melhor compreensão do amor,
Algumas se admirariam devido ao “quanto” de amor tinham a disposição e outras se assuntariam por serem tão desprezadas,
Após um crescente aumento no índice de suicídios, matrimônios desfeitos, um ou dois conflitos armados, a venda fica temporariamente vetada...
A mesma industria, após uma ação governamental, diria que o aparelho apresentara uma falha técnica e que seria sanada, alguns parlamentares comprados, volta-se a “maquininha” ao mercado,
Alguns anos se passam, novas pesquisas, patentes expiram e a invenção torna-se domínio publico,
Varias empresas adentram no ramo na TECNAMOR
Modelos mais avançados são lançados, e slogans novos são divulgados em outdoors:
“Saiba o quanto seu marido lhe ama, através de sua transpiração”,
“Novo AMORIMETRO, agora com ficou fácil saber se sua esposa está lhe traindo.”
E as manifestações inerentes ao amor são agora, partes de espectro,
Qual o espectro eletromagnético ou o código genético, um grupo de cientistas reúnem-se para decodificar o “código do amor”
Após 121 anos de pesquisas o código fica pronto, um alvoroço se forma na mídia,
Os resultados mostram-se impressionantes:
Manifestações mais “suaves” do espectro revelam a possibilidade de outras mensurações,
E define-se o amor:
“Conjunto de micro-sentimentos manifestados por uma pessoa em relação à outra ou a um objeto qualquer”.
E as empresas constroem aparelhos mais sofisticados,
Capazes de mensurar carinho, respeito, admiração, ou qualquer afeto descritível.
E modelos são desenvolvidos para animais de estimação.
Logicamente, cada aparelho é intransferível e regulado no ato da compra.
Em verdade, desde o primeiro aparelho essa máxima já se mostrava presente.
Aos fies aparelhos específicos para mensurar sua fé são utilizados nos sermões, após uma extrapolação da fé de ícones como Jesus, Madre Tereza, Gandhi, Sidarta Gautama, Maomé...
Em pouco tempo a então grandeza amor ganha novas derivações e números,
São utilizados novos termos e definições:
“Potencial Amorifico: Capacidade de amar de cada individuo”
“Campo de Amor: Medida do somatório de amor direcionado a certo indivíduo em um dado espaço”.
“Fluxo de amor: Quantidade de amor recebida em dado intervalo de tempo”
E algumas pesquisas da medicina indicam que as pessoas para terem uma saúde perfeita devem estar submetidas a um numero “x” de campo amorniano.
Outras dizem que o fluxo “y” de amor diário garante uma maior longevidade.
E os aparelhos percorrem as mãos de praticamente todas as pessoas da terra.
Logicamente, devido aos problemas de outrora, as empresas modificam os aparelhos para que todas as pessoas tenham um mínimo de amor possível.
E as pessoas vivem “felizes”, enganadas, porem certas de que são queridas por outras.
E comentários ecoam pelos ambientes joviais:
“Nossa hoje o nível de amor está alto”
“Você viu o novo aparelho que saiu ontem, ele indica a probabilidade de um relacionamento dar certo”.
“Eu li que doses homeopáticas de amor são mais saudáveis”.
“O governo vai instituir que casais que não amam adequadamente seus filhos venham a perder a guarda”.
E a ciência cumpre seu papel.
E já não existe mais uma preocupação com a confiabilidade dos números,
Os indivíduos mostram-se seduzidos pelos números e somente eles importam,
Pessoas que apresentam números “maiores” estão fadadas à felicidade.
E o carinho é medido e controlado, casais instituem horários para sentirem carinho mutuamente.
Crianças aprendem que o amor é uma medida,
A palavra sentimento reside apenas em dicionários arcaicos,
E concursos são criados “a pessoa mais amada do mundo, estado, cidade...”; A pessoa mais amável do mundo, estado...”
Mas embora o aparelho quase mágico tenha aparecido, o mundo não parece ter mudado,
Ainda transitam pelas ruas flagelados, famintos e oprimidos,
Estranhamente são seduzidos pelo “aparelhozinho” e não percebem suas angustias, têm eles o mínimo recomendado pelo “Ministério de Controle do Amor e Sanidade” qual Orwell tinha previsto.
E cria-se o padrão de amor, a modismo amorniano, produtos e terapias...
Pessoas se especializam em “consultaria amorniana”,
Mas a África ainda sangra em guerras civis, em fome, em mutilações...
Mas sensores controlados por satélites indicam que o problema da África, não é falta de amor, pois índices indicam que a taxa está crescendo e tão logo cheguem ao ponto “A” os conflitos cessarão.
Nunca os números foram tão favoráveis à “felicidade”.
Mas ainda acontecem crimes, estupros são justificados:
“Meu aparelho indicava que a senhora “J” estava apta a copula com minha pessoa”.
Problemas técnicos, erros de leitura, mais um dentro da jaula,
E embora lojas tenham sensores de campo amorniano, os assaltos não deixam de ocorrer,
E a prostituição, agora denominada reposição de carinho por profissionais treinados, gerencia a manutenção da “felicidade”...
Políticos mais amáveis são eleitos com maior felicidade,
Mas ainda existe corrupção,
Um dia se descobre um desdobramento de uma das raias do espectro amoniano – a banda da honestidade,
E o “caráter” passa a ser a referência, agora, monitorado via satélite.
E se tapam as lacunas da áfrica e crimes, pois a honestidade agora medida é o melhor indicador...
Neste mesmo período, com o estudo da banda da honestidade um novo código de leis internacionais é criado, presidido pela, também recém criada, OHM (organização da honestidade mundial) – composta pelas pessoas mais honestas do planeta...
E por que é assim? – Porque assim informam os números.
E o grau mínimo de honestidade (GMH) corresponde à média ponderada dos presídios de todo o mundo, considerandos os delitos comuns a cada nação.
Alguns dias após a publicação do GMH, várias nações modificam seus códigos de leis, e começam as caçada as bruxas,
E uma nova classe de indivíduo é criada – os peseudohumanos.
E todos são condenados, obrigados a andarem com uma vestimenta adequada que os indiquem,
E os dantes invisíveis sociais, agora rotulados por uma roupa xadrez, são submetidos as piores torturas psicológicas,
E os peseudohumanos têm seus direitos suspensos até recuperarem ou obterem a honestidade mínima exigida por lei,
Um novo requisito de mercado é criado, mas muitos conseguem burlar os sensores, manipular os números e o mundo não muda muito...
Os peseudohumanos praticamente escravos, mas é justificável - “quem confiaria em um animal desta categoria” clama um programa de TV.
Já outro apresenta alguns ex-peseudohumanos, recentemente recuperados e com elevadíssimos níveis de honestidade – fruto de uma iniciativa governamental.
O mundo evolui...
E já não existem mais diálogos entre as pessoas, basta olhar o número indicado no “carinhometro”, “tesometro”...
Orfanatos indicam os indicies de potencial afetivo das crianças através de gráficos – através destes os possíveis pais podem verificar o quanto vão ser amados por seus futuros filhos...
Já nesta época uma recente pesquisa indica que um neurotransmissor é o responsável pela desonestidade e apenas pessoas com determinadas combinações gênicas metabolisam tal substância.
A industria farmacêutica sintetiza a droga e vende a nações em guerra...
E o mundo caminha por mais um tempo...
E a certeza da retidão é a chave mestra de todas as nações, mas o mundo ainda é o mesmo,
Os dantes rotulados, após um tempo tornam-se invisíveis, o silêncio impera sob o planeta...
Um evento marca o mundo no dia 26 de dezembro de 1500 da era pós Amor Global,
A guerra do amor tem inicio, uma nova norma instituída pela OHM unifica as nações mais amáveis e honestas do mundo, por coincidência as mais RICAS.
E o bloco é governado pele semideus Átila.
E as nações desonestas são varridas da face do planeta por representarem o maior mal existente na terra.
E Deus é descrito agora em números, cujo único ser capaz de compreender seus mandamentos é o semideus – o mundo está a salvo, o mundo esta feliz, Deus, agora unificado em religião e estado comanda o mundo, e o amor perpetua na terra.
Pode-se acabar a história futurista facilmente, ou perdurar em novos fatos,
Um evento cataclísmico destrói o mundo,
Átila enlouquece e dispara varias armas nucleares sob o planeta,
Seres extraterrenos invadem a terra e dominando-a,
Pouco importa o quanto pareça o final da história,
São meras linhas riscadas na incerteza, no absurdo destacado outrora,
É o fruto de minha incapacidade de dizer “eu te amo”
Sem sentir medo
È a prova cabal de minha fraqueza como humano,
É pensar em fazer bobagens infantis para, novamente, despertar sua atenção, mesmo parecendo-me ridículo, mesmo após tanto tempo de convivência,
É um caminho bem humorado que revela minha falta de fé,
O medo de te esquecer, mesmo julgando a impossibilidade desse acontecimento,
A ausência da realidade que só existe em meus sonhos, em meus pensamentos,
A perda da capacidade de julgamento entre onde termina minha alma e começa a sua.
O total desespero de sentir uma saudade escandalosa e brigar com o mundo porque você se encontra distante.
A angustia das horas se passarem lentamente enquanto espero seu telefonema, uma mensagem sua...
O palpitar involuntário do peito frete suas expressões faciais e a lembrança perdida de seu riso diante do crepuscular,
É esquecer toda minha ciência, todo meu jeito metódico em ações e falas e estabelecer o critério da simplicidade, revelar em meu olhar o quanto foi e é importante a minha vida,
E ver diante da noite, dentre minha brincadeira de ligar pontos luminosos revelam-se os instantes que passamos juntos,
O afago de minha mão sob sua pele, percorrendo-te todo seu corpo,
O velar de seu sono suave e ritmado – sincronizando as batidas dos nossos corações,
Seu despertar com os cabelos revoltos e olhar angelical,
Sua fraqueza para bebidas e o jeito alegre que ficava quando exagerava,
Seu ciúme disfarçado contrastado em abraços fortes e face enfezada...
Nossas discussões por bobagens e o jeito engraçado que elas acabavam,
Sua insistência maluca em querer que participássemos do greenpeace, em querer colocar a mochila nas costas e sair sem rumo pelo mundo.
Suas lagrimas, frente meu esquecimento de datas “especiais”.
E o dia vem, levando os pontos iluminados do céu,
E já não risco mais nosso recente passado nas linhas do infinito,
Vêm a mim, por fim, a consciência, a realidade...
A saudade de algo que literalmente pertenceu apenas a duas almas terrenas,
Ausente a terceiros, ausente de opiniões alheias – somente nossa.
E no absurdo de minhas histórias inventadas sobre amores medidos e mundos destruídos,
Fica comigo apenas a necessidade de regar o espaço destinado a você e que sempre será seu
Nesse estranho jardim que é minha vida,
Para que, caso deseje retornar ainda encontre solo fértil para descansar,
Embora despedidas e lacerações mutuas tenham ocorrido,
Embora o riso pálido da despedida não seja o real retrato de nossa relação,
As lembranças, desde nosso encontro casual até o traçar destas linhas, se sobrepõe a coisas menores, aos meros caprichos da natureza humana – a qual fazemos parte.
E jaz em minha vida, qual uma cicatriz, o marco do teu primeiro riso, o seu jeito menina de me ensinar à humildade, a responsabilidade de meus julgamentos e a necessidade de auxiliar os menos favorecidos,
Como prova de minha eterna devoção e carinho por você,
E rogo, aos meus novos afetos, que possam refletir em mim a infinita felicidade que me fizeste sentir,
E este momento de fé é derivado de meu medo de jamais tornar a sentir com a mesma intensidade os sentimentos que despertou,
É a maior prova de minha fraqueza e o motivo mister de muitas de minhas ações.
Exórdio de uma batalha mental de procurar a felicidade sabendo que por ventura você venha a não fazer parte do epílogo.
Assim fica a Deus o pedido, em uma prece egoísta, de novamente encontrar aqueles dias de êxtase, em que a sua presença contrariava todo o absurdo de mensurar o amor, o carinho, o respeito; pois simplesmente não se mensura uma idéia, não é possível criar uma escala para medir o infinito.
É tão difícil dizer “eu te amo”...
M.C.C. Santos